Escolhi vender o carro, mudar de casa, de estado, de estilo de vida. Não escolho as mudanças que ocorrem no meu corpo devido à ação do tempo. Escolho sim, aceitá-las, me conciliar com isso e viver bem com elas. Escolho desafiar os padrões socialmente impostos e os limites do meu corpo.
Minha mudança me trouxe duas coisas importantes: a perspectiva de me desafiar todos os dias e a possibilidade de desafiar os estereótipos. Um dos maiores desafios foi voltar a andar de bicicleta depois de 20 anos. No começo, embora andar de bicicleta seja algo que "a gente nunca esquece", obviamente deparei com alguma dificuldade. Duas quedas e muitos hematomas depois, agora andar de bicicleta é um dos pontos altos da minha semana. Ainda não é meu principal meio de transporte (eu ando a pé e uso o Metrô), mas este é um projeto em andamento.
Eu vejo que a vida é como andar de bicicleta: você exerce sua liberdade de escolha, se desafia diante de obstáculos, cai e se levanta, desenvolve habilidades, adquire novos recursos todos os dias para lidar com as adversidades e vai encontrando outras paisagens a medida que segue seu caminho.
O segundo desafio foi uma mudança física. Parei de pintar meus cabelos, o que fazia há mais de vinte anos, e decidi assumir a coloração grisalha. Parece simples mas foi muito significativo para mim e, creio que seja também para outras mulheres. Assumo que encontrei muito apoio e confesso que esbarrei em certo preconceito.
Sim, parece ridículo, mas mulheres grisalhas sofrem preconceito. Entre as coisas que escutei é que cabelo grisalho em homem fica bem e em mulher parece sinônimo de desleixo. Esse tipo de declaração não somente demonstra misoginia, mas uma necessidade que algumas pessoas tem de regular o corpo do outro.
E uma necessidade que a indústria tem de se manter operante a leva a unir forças com a mídia (e investir muito dinheiro em propaganda). Daí temos uma verdadeira lavagem cerebral que consiste em regular também o nosso consumo, desde às novidades cosméticas ao carro do ano. Mas também a escolha de participar do jogo ou criar outra realidade.
E esse é um exemplo bem leve, eu diria, considerando o avanço sistemático de um certo modo de pensar de um conservadorismo anacrônico e de um neoliberalismo distorcido e nocivo, que vem tentando provocar um retrocesso no país, afetando a sociedade no âmbito sócio-político, econômico e cultural, querendo negar a história, barrar os avanços democráticos, retirar direitos já adquiridos e nos manter como uma massa de consumidores alienados e sem senso crítico.
Como se todos tivéssemos de ser iguais segundo uma normatividade que só quer contemplar uma minoria e uma elite financeira...
Mas é impossível conter o fluxo da mudança. Somos como as águas volumosas de um rio estourando as barragens da represa e inundando tudo ao redor. Em tempo, não somos as gotas do rio e sim o 'rio em cada gota'. Cada um de nós, todos nós, partes de uma única correnteza. Quando nos damos conta que somos uma única consciência, a segregação não se sustenta.
Para mim, mais do ser a "menina dos cabelos brancos" toda tatuada e que causa estranheza, é tão importante me equilibrar em guias, me pendurar em grades, escalar pedras com os pés nus e ganhar velocidade com minha bicicleta vermelha, me conectando com a natureza e com minha natureza, quanto amar abertamente e expressar o que penso, minhas ideias e filosofia de vida. Isso me afirma como pessoa singular, como a manifestação da grande consciência numa pequena identidade. Esse é nosso modo de existir. Esse é nosso modo de resistir.


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