"O que não se produz sempre é melhor que o produto, afirmou Duchamp. Ele preferiu a sorte do pária a do "artista assimilado". O Grande Vidro é a última obra realmente significativa do Ocidente. Com ela termina nossa tradição. Diante dela deverá começar a pintura do futuro, se é que a pintura tem um futuro ou o futuro haverá de ter uma pintura. A extirpação do elemento crítico nas obras equivale a uma verdadeira castração e abolição do significado e nos coloca diante de uma produção não menos insignificante, embora muito mais numerosa, que a do período retininiano . Por último nossa época substituiu o antigo reconhecimento pela publicidade, mas a publicidade se resolve em um anonimato geral. É a vingança da crítica. Uma das idéias mais inquietantes de Duchamp se condensa numa frase muito citada: o espectador faz o quadro. Segundo essa declaração, o artista nunca tem plena consciência de sua obra: entre as suas intenções e sua realização, entre o que quer dizer e o que a obra diz, há uma diferença. Essa diferença é realmente a obra. O espectador interpreta e refina o que vê. A diferença se transforma em outra diferença, a obra em outra obra. No meu modo de ver a explicação de Duchamp não dá conta do ato ou processo criador em toda a sua integridade. É verdade que o espectador cria uma obra distinta da imaginada pelo artista, mas entre uma e outra obra, entre o que o artista quis fazer e o que o espectador acredita ver, há uma realidade: a obra. Sem ela, é impossível a recriação do espectador. A obra faz o olho que a contempla. Uma obra é uma máquina de significar. O quadro depende do espectador porque só ele pode por em movimento o aparelho de signos que toda obra é. Nisso reside o fascínio do Grande Vidro e dos ready-made: um e outros reclamam uma contemplação ativa, uma participação criadora. Duchamp está contra o Museu, não contra a Catedral; contra a "coleção" não contra a arte fundida à vida. Duchamp pretende reconciliar arte e vida, obra e espectador. Arte fundida à vida é arte socializada, não arte social nem socialista e ainda menos atividade dedicada à produção de belos objetos ou simplesmente decorativos. Arte fundida à vida quer dizer: a arte mais difícil. Uma arte que obriga o espectador e o leitor a converter-se em um artista e em um poeta. Em 1923, Duchamp abandonou definitivamente a pintura do Grande Vidro. Desde então sua atividade foi isolada e descontínua. Sua única ocupação permanente: o xadrez. Alguns pensam que esta atitude foi uma diserção. Porém a inatividade de Duchamp é o prolongamento natural de sua crítica: é mataironia. Sublinho a distinção entre arte e idéia da obra porque o que denunciam os ready-made e outros gestos de Duchamp é a concepção da arte como uma coisa - a coisa artística - que podemos separar de seu contexto vital e guardar em museus e outros depósitos de valores. A própria expressão "tesouro artístico" revela o caráter passivo e lucrativo de nossa noção de obra. Para os antigos como para Duchamp e os surrealistas, a arte é um meio de liberação, contemplação ou conhecimento, uma aventura e uma paixão. A arte não é uma categoria a parte da vida. O silêncio de Duchamp é aberto: afirma que a Arte é uma das formas mais altas da existência, com a condição de que o criador escape a uma dupla armadilha: a ilusão da obra de arte e a tentação da máscara de artista. Ambas nos petrificam: a primeira faz de uma paixão uma prisão e a segunda de uma liberdade, uma profissão. A liberdade não é um saber, mas aquilo que está depois do saber. É um estado de ânimo que não só admite a contradição como busca nela seu alimento e seu fundamento. Os santos não riem nem fazem rir, mas os sábios verdadeiros não têm outra missão que nos fazer rir com seus pensamentos e nos fazer pensar com as suas histrionices. A atitude de Duchamp nos ensina que o fim da atividade artística não é a obra, mas a liberdade. A obra é o caminho e nada mais. Esta liberdade ambígua, ou melhor dizendo, condicional: a cada instante podemos perdê-la, sobretudo se tomarmos a sério nossa pessoa e nossas obras. Sabedoria e liberdade, vazio e indiferença se resolvem em uma palavra chave: pureza. Pureza é aquilo que fica depois de todas as somas e restos. "
fragmentos de Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza - de Octavio Paz