terça-feira, 11 de novembro de 2008

Penso que o artista se tornou uma figura suspeita. Acima de tudo porque ele tem se limitado as antigas disciplinas: o artista tem que ser pintor, escultor, bailarino, poeta ou qualquer outra coisa que as pessoas consideram cultural. Em nada me refiro a isso. A proposta de que toda pessoa é um artista exige muito mais das pessoas do que os artistas podem atingir, em última instância, quando pintam quadros maravilhosos. Concordo, é importante, mas para o futuro da humanidade não é determinante. O que é crucial é ligar a palavra artista com todas as pessoas simplesmente com seu próprio trabalho. E o que é então evidente é que a forma de alcançar a chamada arte não é o que é melhor para a arte. O conceito ampliado de arte implícito em toda pessoa é um artista não é simples, apesar de ser muito necessário para a arte. No sentido antropológico da arte, um lixeiro cumpre tudo isso antes que um pintor, mas isso permanece em aberto. Não sabemos quem cumpre isso em seu posto de trabalho. No momento, parece que os artistas são os mais reticentes. (Joseph Beuys) extraído do livro Pensar Cristo de Friedhelm Mennekes

 

quinta-feira, 30 de outubro de 2008



Helena Almeida – Conversa na 28ª. Bienal de São Paulo (29/10/2008) 

“Na minha obra não há distinção entre corpo do artista e corpo da obra. No cinema, eu sempre apreciei as fotografias dos filmes e pensava no mistério das personagens, o que teriam de dizer umas as outras. Quando olhava pinturas, pensava o que havia por trás delas, o que estava acontecendo enquanto o artista pintava, o que havia em volta dele. Lúcio Fontana cortava a tela e havia ali atrás um espaço, um obscuro, um mistério para além. Lucio Fontana foi decisivo, não há outra palavra para descrever. Decisivo. E eu quis indicar às pessoas que existe um mistério ali em volta. No meu trabalho, o que ficavam das ações eram registros fantásticos. Quando via as fotografias, sentia a intensidade do momento, ali estava o que havia antes e depois do momento, a vida... a morte... Nunca quis grande coisa da fotografia, estou à vontade com ela. Com elas, não tinha de justificar ou explicar nada, a pintura era eu. Eu sou a pintura. A linha, o desenho e a pintura estão em mim. Este corpo não é ideológico, é um corpo que contém tudo. Sentia que podia dar toda a emoção e relação com o espaço e a pintura com meu corpo. Não preciso de mais nada, tenho tudo o que preciso. Quando escolho uma coisa é porque não pode ser outra. Às vezes arquitetura e teatro me emocionam mais que o trabalho de alguns colegas artistas...”

http://www.artnet.com/artist/107524/helena-almeida.html

 



quarta-feira, 22 de outubro de 2008



"O que não se produz sempre é melhor que o produto, afirmou Duchamp. Ele preferiu a sorte do pária a do "artista assimilado". O Grande Vidro é a última obra realmente significativa do Ocidente. Com ela termina nossa tradição. Diante dela deverá começar a pintura do futuro, se é que a pintura tem um futuro ou o futuro haverá de ter uma pintura. A extirpação do elemento crítico nas obras equivale a uma verdadeira castração e abolição do significado e nos coloca diante de uma produção não menos insignificante, embora muito mais numerosa, que a do período retininiano . Por último nossa época substituiu o antigo reconhecimento pela publicidade, mas a publicidade se resolve em um anonimato geral. É a vingança da crítica. Uma das idéias mais inquietantes de Duchamp se condensa numa frase muito citada: o espectador faz o quadro. Segundo essa declaração, o artista nunca tem plena consciência de sua obra: entre as suas intenções e sua realização, entre o que quer dizer e o que a obra diz, há uma diferença. Essa diferença é realmente a obra. O espectador interpreta e refina o que vê. A diferença se transforma em outra diferença, a obra em outra obra. No meu modo de ver a explicação de Duchamp não dá conta do ato ou processo criador em toda a sua integridade. É verdade que o espectador cria uma obra distinta da imaginada pelo artista, mas entre uma e outra obra, entre o que o artista quis fazer e o que o espectador acredita ver, há uma realidade: a obra. Sem ela, é impossível a recriação do espectador. A obra faz o olho que a contempla. Uma obra é uma máquina de significar. O quadro depende do espectador porque só ele pode por em movimento o aparelho de signos que toda obra é. Nisso reside o fascínio do Grande Vidro e dos ready-made: um e outros reclamam uma contemplação ativa, uma participação criadora. Duchamp está contra o Museu, não contra a Catedral; contra a "coleção" não contra a arte fundida à vida. Duchamp pretende reconciliar arte e vida, obra e espectador. Arte fundida à vida é arte socializada, não arte social nem socialista e ainda menos atividade dedicada à produção de belos objetos ou simplesmente decorativos. Arte fundida à vida quer dizer: a arte mais difícil. Uma arte que obriga o espectador e o leitor a converter-se em um artista e em um poeta. Em 1923, Duchamp abandonou definitivamente a pintura do Grande Vidro. Desde então sua atividade foi isolada e descontínua. Sua única ocupação permanente: o xadrez. Alguns pensam que esta atitude foi uma diserção. Porém a inatividade de Duchamp é o prolongamento natural de sua crítica: é mataironia. Sublinho a distinção entre arte e idéia da obra porque o que denunciam os ready-made e outros gestos de Duchamp é a concepção da arte como uma coisa - a coisa artística - que podemos separar de seu contexto vital e guardar em museus e outros depósitos de valores. A própria expressão "tesouro artístico" revela o caráter passivo e lucrativo de nossa noção de obra. Para os antigos como para Duchamp e os surrealistas, a arte é um meio de liberação, contemplação ou conhecimento, uma aventura e uma paixão. A arte não é uma categoria a parte da vida. O silêncio de Duchamp é aberto: afirma que a Arte é uma das formas mais altas da existência, com a condição de que o criador escape a uma dupla armadilha: a ilusão da obra de arte e a tentação da máscara de artista. Ambas nos petrificam: a primeira faz de uma paixão uma prisão e a segunda de uma liberdade, uma profissão. A liberdade não é um saber, mas aquilo que está depois do saber. É um estado de ânimo que não só admite a contradição como busca nela seu alimento e seu fundamento. Os santos não riem nem fazem rir, mas os sábios verdadeiros não têm outra missão que nos fazer rir com seus pensamentos e nos fazer pensar com as suas histrionices. A atitude de Duchamp nos ensina que o fim da atividade artística não é a obra, mas a liberdade. A obra é o caminho e nada mais. Esta liberdade ambígua, ou melhor dizendo, condicional: a cada instante podemos perdê-la, sobretudo se tomarmos a sério nossa pessoa e nossas obras. Sabedoria e liberdade, vazio e indiferença se resolvem em uma palavra chave: pureza. Pureza é aquilo que fica depois de todas as somas e restos. "

fragmentos de Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza - de Octavio Paz