segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Instrumento do guerreiro: recapitulação

Acabo de completar 41 anos. É uma daquelas fases de transição em décadas em que você deve considerar questões essenciais. É quase como atravessar um pórtico, saindo do jardim aberto e florido da juventude e adentrando o interior sóbrio da casa. Nos aposentos, você logo percebe que há vestimentas que não te servem mais e objetos que não tem mais uso para você: pensamentos e comportamentos que podem e devem ser reciclados e projetos aguardando nas gavetas do seu interior, sob o ruído ininterrupto do relógio lembrando que afinal, nosso tempo linear passa e que não temos muito desta substância volátil e transitória para investir naquilo que não ecoa mais com nossa verdade.
Esses momentos de transição necessária são semelhantes à vida da lagosta, que continua crescendo no interior da carapaça e que, em dado momento, passa pela difícil decisão: de um lado, a mudança que consiste em sair para o exterior em busca de uma casa maior que atenda as suas necessidades de desenvolvimento, somada ao iminente risco de morte pelo ataque de predadores durante o percurso; e de outro lado, a morte lenta e inevitável por sufocamento.

Por sufocamento, podemos entender qualquer situação que nos trás sensações de: tédio; paralisação; insatisfação; não perinência; desmotivação; repetição (como num moto continuum); inutilidade; passagem inexorável do tempo; envelhecimento; extrema falta de energia; encontrar-se numa encruzilhada, ou patinando como se estivéssemos numa esteira que se move a despeito do nosso controle numa direção qualquer que desconhecemos, como se houvesse um destino ou poder superior que atua acima da nossa vontade. A conseqüência disso em geral é: desperdício de tempo; incoerência; falta de foco, direção e objetividade; procrastinação; projeção; falta de ação; crescente incapacidade de tomar decisões; submissão; co-dependência; doença física e psíquica; e gradativa morte da alma.

O fato de meu aniversário coincidir com a passagem do ano acentua ainda mais, para mim, a necessidade de uma revisão. Porém, agora, estou disposta a ir além: intento a recapitulação, prática do xamanismo tolteca, pelo qual nutro grande admiração e interesse.
O xamanismo tolteca afirma que quando vivemos um evento, sempre deixamos para trás uma parte de nossa energia e levamos a energia das pessoas, o que nos enfraquece e nos aprisiona.
Mesmo sabendo que o tempo linear é somente um aspecto, penso que a passagem de ano, seja na contagem do calendário ou da existência, pode ser um período profícuo para esta modalidade de aprendizado.

“Todos os fatos da vida devem ser recapitulados, por isso se diz que a recapitulação dura a vida inteira, temos sempre camadas mais profundas para recapitular.” (Nuvem que passa)

A recapitulação não é uma técnica terapêutica ou prática com fins psicanalíticos e não deve ser confundida com revisão. Eu até pratiquei algum tempo a revisão diária, no momento entre a vigília e o sono, repassando cada evento vivido no dia.

Na revisão também pode ser útil manter um caderno onde anotamos não os fatos em si, mas como nos sentimos diante deles (antes de dormir). Este exercício, como é ensinado no Pathwork® (sistema de autotransformação e autorrealização pessoal), é muito profícuo para identificar os padrões que determinam nossos hábitos, comportamentos e ações.

Porém, a revisão é realizada somente num nível mental e não dá conta de transformar energeticamente o momento em que o evento aconteceu e conseqüentemente só irá reforçar psíquica e emocionalmente seus efeitos e não resgatar a nossa energia perdida. Num certo sentido é o que ocorre nos processos psicanalíticos, por isso que, muitas vezes, ao invés de se sentir bem, a pessoa acaba por reviver o mal estar; ao invés de uma sensação de liberação e leveza, advém uma sensação de peso e prisão.

Há um prazer atávico em escapulir da prisão. (Arnaldo Preto)


É possível que em certos momentos da revisão o corpo emocional sinta necessidade de liberar energias represadas através do choro convulsivo (ou outro tipo de liberação ou excreção). Não creio que isso deveria ocorrer na recapitulação.

A recapitulação não é só lembrar-se de um evento que aconteceu com total atenção. Mais do que isso, é o uso da magia da respiração para varrer os eventos trazendo de volta a nossa energia e devolvendo a energia que trouxemos. Sua base é o deslocamento do ponto de aglutinação até a posição que ocupava no evento.

Para isso ocorrer é necessário silêncio e recolhimento. Como recebemos o tempo todo estímulos exteriores, é recomendado recapitular em engradados, armários, lugares mais fechados, com pouca luminosidade, que facilitam o deslocamento do ponto de aglutinação. Não é recomendado recapitular em lugares abertos.

Recapitular é um dos instrumentais de guerra, a guerra contra os limites em nossa busca de liberdade. (Nuvem que Passa)