sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A difícil tarefa de se tornar um anjo

© Malu Aguiar: Solilóquio
“Nada necessita ser dito. ” Precisamente por isso o dizemos: para nos ouvir.

Quando tatuei o “being an angel”, ele fazia parte de uma performance vida/arte. Esta frase foi retirada de um texto de Gianni Romano (1998)* sobre a obra de Francesca Woodman (até hoje, a única pessoa que apreendeu essa relação de imediato, foi a artista carioca Claudia Tavares).
Conheci Francesca em 2003, quando então iniciei meu projeto de autorretratos na ULA – Universidade Livre de Arte, projeto que participei com alguns dos integrantes que conheci no Grupo de Terça do Ateliê Piratininga, sob a batuta de Rubens Espírito Santo (Res), no então Ateliê do Centro. Minha pesquisa em autorretratos nasceu da tentativa de diminuir a distância entre vida e arte, em tornar a mim mesma e meu cotidiano minha obra. Nesse momento, estava me debruçando sobre a obra de artistas mulheres que trabalhavam com retratos ou autorretratos, como Ana Mendieta, Ellen Van Meene, Emanuelle Antille, Rosangela Rennó, Elina Brotherus, mas foi o film stills de Cindy Sherman que me motivou a começar a criar personas e fotografá-las nas casas das pessoas. A obra de Francesca foi tema de um dos meus trabalhos "acadêmicos" da ULA.
Passei tempo demais nesse exercício dos autorretratos (cerca de 4 anos), sendo que eu era a modelo, a diretora e a fotógrafa. Fartei-me da empostação dos temas planejados e não tardou para que eu me tornasse “o assunto e objeto” da obra. Como uma espécie de auto escrutínio constante, passei a me fotografar em diversas situações, no Ateliê do Centro e outros locais. Nesses autorretratos, alguns fenômenos não planejados aconteciam, como efeitos de transfiguração, de modo que eu senti que havia muito mais no espaço entre mim e a câmera. O inabordável se fazendo presente. Penso ser isso que é possível sentir (e ver) na obra de Francesca, obviamente com muito mais qualidade estética e poética. A obra de Francesca traduz muito da aflitiva experiência humana e seu esforço de transcendência.
© Francesca Woodman: On Being an Angel
Dos melhores filmes que vi sobre anjos, (Asas do Desejo, Tão Longe Tão Perto e Cidade dos Anjos) anjos são apresentados semelhantes aos humanos. Eles são comuns e ao mesmo tempo singulares. Eles desejam a cinestésica experiência humana assim como desejamos sua imanência. Mas não há diferença entre nós. E, talvez sejamos mesmo anjos caídos. Desde pequena me dizem: você é um anjo. Quer seja ao agradecer as infinitas gentilezas, preocupações e cuidados com o bem-estar do outro, quer seja porque de algum modo me assemelhava a um. O fato é que nunca me vi ou me senti leve, excetuando quando embarco de avião ou de amor, quando danço livremente ou faço yoga e meditação, em uma única viagem alucinógena ou quando me penduro e balanço. A pretensa leveza de corpo e alma requer movimento ou cessação de pensamento. Requer mergulhar na totalidade pelo amor. Foi uma “difícil tarefa a prática e preparação para me tornar um anjo”...tornar-me Mardi Luss (Mar de Luz, Marlucia). De fora de estereótipos de gênero, padrões de pensamento e comportamento, ausência de crítica ou julgamento, despir-se de preconceitos e abrir mão de qualquer controle ou medo, lançar-se ao desconhecido. Permitindo-me o sentimento de totalidade e mergulhando na “imensidão que tememos”**.
Vocês sabem: “a ambiguidade aumenta com a força dos sentimentos envolvidos”, desejo e medo caminham de mãos dadas: são filhos gêmeos da falta. E é muito maior o conforto de estar em uma “fragmentária, mas acolhedora realidade” que mergulhar no “espaço para o transitório, para a mudança”. Gostamos de certa densidade e nos enamoramos da gravidade da vida. E, mais que buscar perceber a totalidade, ser a totalidade pode ser um tanto assustador.
Agora, ando experimentando essa qualidade de leveza que pensei serem reservadas às crianças, aos moribundos ou aos anjos. É uma leveza de passagem, de atravessamento. Em breves momentos o pensamento cessa e o corpo desaparece. Então, é só silêncio, dentro e fora.
*citações do texto original nas aspas
** citação de música de Sarah Mclachlan

Transcendência (do latim transcēndo, is, di, sum, ĕre): passar subindo, atravessar, ultrapassar, transpor; (filosofia):  imanência, ascender ou ir além

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Bicicleta vermelha e cabelos brancos

No post passado estava a falar sobre mudanças, sobre que a vida é um fluxo constante e que não se pode conter. Conter o fluxo é correr o risco de acidentes no percurso, inundações devido a obstrução pelas barragens. A única certeza nessa vida, além da morte, é a inevitabilidade da mudança. Algumas nós escolhemos, outras nos escolhem.
Escolhi vender o carro, mudar de casa, de estado, de estilo de vida. Não escolho as mudanças que ocorrem no meu corpo devido à ação do tempo. Escolho sim, aceitá-las, me conciliar com isso e viver bem com elas. Escolho desafiar os padrões socialmente impostos e os limites do meu corpo. 
Minha mudança me trouxe duas coisas importantes: a perspectiva de me desafiar todos os dias e a possibilidade de desafiar os estereótipos. Um dos maiores desafios foi voltar a andar de bicicleta depois de 20 anos. No começo, embora andar de bicicleta seja algo que "a gente nunca esquece", obviamente deparei com alguma dificuldade. Duas quedas e muitos hematomas depois, agora andar de bicicleta é um dos pontos altos da minha semana. Ainda não é meu principal meio de transporte (eu ando a pé e uso o Metrô), mas este é um projeto em andamento. 
Eu vejo que a vida é como andar de bicicleta: você exerce sua liberdade de escolha, se desafia diante de obstáculos, cai e se levanta, desenvolve habilidades, adquire novos recursos todos os dias para lidar com as adversidades e vai encontrando outras paisagens a medida que segue seu caminho. 
O segundo desafio foi uma mudança física. Parei de pintar meus cabelos, o que fazia há mais de vinte anos, e decidi assumir a coloração grisalha. Parece simples mas foi muito significativo para mim e, creio que seja também para outras mulheres. Assumo que encontrei muito apoio e confesso que esbarrei em certo preconceito. 
Sim, parece ridículo, mas mulheres grisalhas sofrem preconceito. Entre as coisas que escutei é que cabelo grisalho em homem fica bem e em mulher parece sinônimo de desleixo. Esse tipo de declaração não somente demonstra misoginia, mas uma necessidade que algumas pessoas tem de regular o corpo do outro. 
E uma necessidade que a indústria tem de se manter operante a leva a unir forças com a mídia (e investir muito dinheiro em propaganda). Daí temos uma verdadeira lavagem cerebral que consiste em regular também o nosso consumo, desde às novidades cosméticas ao carro do ano. Mas também a escolha de participar do jogo ou criar outra realidade. 
E esse é um exemplo bem leve, eu diria, considerando o avanço sistemático de um certo modo de pensar de um conservadorismo anacrônico e de um neoliberalismo distorcido e nocivo, que vem tentando provocar um retrocesso no país, afetando a sociedade no âmbito sócio-político, econômico e cultural, querendo negar a história, barrar os avanços democráticos, retirar direitos já adquiridos e nos manter como uma massa de consumidores alienados e sem senso crítico.  
Como se todos tivéssemos de ser iguais segundo uma normatividade que só quer contemplar uma minoria e uma elite financeira...
Mas é impossível conter o fluxo da mudança. Somos como as águas volumosas de um rio estourando as barragens da represa e inundando tudo ao redor. Em tempo, não somos as gotas do rio e sim o 'rio em cada gota'. Cada um de nós, todos nós, partes de uma única correnteza. Quando nos damos conta que somos uma única consciência, a segregação não se sustenta. 
Para mim, mais do ser a "menina dos cabelos brancos" toda tatuada e que causa estranheza, é tão importante me equilibrar em guias, me pendurar em grades, escalar pedras com os pés nus e ganhar velocidade com minha bicicleta vermelha, me conectando com a natureza e com minha natureza, quanto amar abertamente e expressar o que penso, minhas ideias e filosofia de vida. Isso me afirma como pessoa singular, como a manifestação da grande consciência numa pequena identidade. Esse é nosso modo de existir. Esse é nosso modo de resistir.