terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Esse céu de amianto de tarde fechada em São Paulo... Limpei minhas asas mas hoje não arrisco voar: pode ser que chova. Andei lustrando os vidros da minha alma para guardar alguns compromissos. Um guarda livros não traz periódicos... Hoje, somente o presente perfila marchando sobre si mesmo. O passado já embotado como páginas de livros antigos, esgarça. O de ontem mesmo. Sou toda presença, nesse instante. E quero dançar. 
'small world' de Malu Aguiar
'dragon can't fly' de Malu Aguiar
vamos cuidar do nosso pequeno mundo para que a morte não nos alcance... 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Viver Paulista

Avenida Paulista - foto de Malu Aguiar
Viver na Paulista é estar no meio de uma torre de Babel; respirar gás carbônico e expirar os detritos nos respiros entre edifícios. A avenida de todas as línguas e 'sutaques', de todos os dialetos e todos os instrumentos; a avenida das jovens executivas se equilibrando em seus sapatos novos altos, muito altos, bicos apontados para a frente ou para os lados, ou quase se bicando no meio. A avenida das gravatas e ternos, dos negócios, do consumo consumo consumo e do trabalho trabalho trabalho. A avenida do dinheiro e das causas. Só a Paulista nos surpreende com um fogo na calçada em forma de uma mulher de cabelos longas labaredas e vestido comprido amarelo cor do sol escaldante do meio-dia entre paredes cinzentas. Só na Paulista vemos um desfile de desenhos sobre a pele, todas as tribos, para todos os gostos. A avenida dos milhares de sabores de cozinhas do mundo todo, das pracinhas e da fonte na praçona, dos sorvetes de casquinha - após o almoço, dos cafés americanos em grandes copos, do yakissoba. A avenida dos skatistas; dos hippies atemporais; dos músicos. A avenida do artista. Há pressa na Paulista, se apressa na Paulista, a pressa dos pedestres, dos motoristas, dos ciclistas. Contra a demora do bêbado e do equilibrista. Ser na Paulista é um viver paulista. É a avenida das galerias, do Museu e dos bancos, das greves intermináveis e das passeatas cambiáveis - da marcha a favor da maconha e da marcha contra a marcha a favor da maconha e onde a maconha marcha, solta. A Paulista é dos empreendimentos e, cada vez mais, dos shoppings e lojas de departamento. A Paulista dos cinemas (e das farmácias shoppings) é também a avenida do Papai Noel e do Réveillon, da São Silvestre e da Parada Gay. A Paulista é nosso chão de cimento e nosso céu de amianto. É onde nos encontramos para divagar na escadaria ou matar o tempo na livraria, tomar um café no bar, caipirinha no bistrô e a cerveja em qualquer lugar. A Paulista é 'o' lugar e lugar algum. É o lugar nenhum onde eu amo ficar e fico a amar.

terça-feira, 1 de março de 2011

Biográfico

'O Equilibrista' (Man on Wire), documentário de James March sobre o crime artístico intilulado 'le coup' (o golpe) quando Phillippe Petit andou sobre uma corda bamba estirada entre as torres do World Trade Center em 1974.
O livro 'Só Garotos', de Patti Smith, sobre seu relacionamento com Robert Mapplethorpe. 
Prisioneiros daquilo que amavam. 
Derrubar fronteiras. Romper limites. Estado de arte.


Biografia. Ser espectador da história alheia e tentar aprender com a experiência do outro. Ver-se no outro: projeção. Máscaras e personas. Subterfúgios e artifícios. Analfabetismo de si. Padrões de comportamento. Seguir memesNão estar de posse de si mesmo. Querer possuir o outro. Fã e fanático. Adorador. Iconólatra. Dependência e co-dependência. Ser autômato.  


Biográfico. Auto observação, auto escrutínio, versar-se em si mesmo, passar sua história a limpo - assumir quem se é até as últimas conseqüências, recapitulação. Usar seus próprios recursos e provisões. Apreender o significado da própria experiência. Fazer arte da vida ou da vida arte. Individuação. Criar memes. Tomar posse de si mesmo, se possuir, auto possessão. Embodied. Ipseidade. *
Ser protagonista de sua própria história e menos espectador das histórias alheias. Ser seu próprio mestre. Auto mestrado. Iconoclasta. Independência e interdependência. Ser autônomo.   


Experiência de auto-apropriação III: o mapa. Cartografia intelectual e espiritual de Marlucia. 
referência: *Conceitos e Cartografia na obra de Rubens Espírito Santo


Experiência de auto-apropriação II: tatuagem (por Alessandro Del'Arno - foto de Luiza de Moura)


Conclusão
Graduação maestria
Autorização
Personificação da mais alta verdade
Libertação
Sagrada união
Amor verdadeiro
Um só coração
Unidade


referência: livro 11:11 - A Abertura dos Portais de Solara



Experiência de auto-apropriação I: numerologia (por Sandra Maschietto)




segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Instrumento do guerreiro: recapitulação

Acabo de completar 41 anos. É uma daquelas fases de transição em décadas em que você deve considerar questões essenciais. É quase como atravessar um pórtico, saindo do jardim aberto e florido da juventude e adentrando o interior sóbrio da casa. Nos aposentos, você logo percebe que há vestimentas que não te servem mais e objetos que não tem mais uso para você: pensamentos e comportamentos que podem e devem ser reciclados e projetos aguardando nas gavetas do seu interior, sob o ruído ininterrupto do relógio lembrando que afinal, nosso tempo linear passa e que não temos muito desta substância volátil e transitória para investir naquilo que não ecoa mais com nossa verdade.
Esses momentos de transição necessária são semelhantes à vida da lagosta, que continua crescendo no interior da carapaça e que, em dado momento, passa pela difícil decisão: de um lado, a mudança que consiste em sair para o exterior em busca de uma casa maior que atenda as suas necessidades de desenvolvimento, somada ao iminente risco de morte pelo ataque de predadores durante o percurso; e de outro lado, a morte lenta e inevitável por sufocamento.

Por sufocamento, podemos entender qualquer situação que nos trás sensações de: tédio; paralisação; insatisfação; não perinência; desmotivação; repetição (como num moto continuum); inutilidade; passagem inexorável do tempo; envelhecimento; extrema falta de energia; encontrar-se numa encruzilhada, ou patinando como se estivéssemos numa esteira que se move a despeito do nosso controle numa direção qualquer que desconhecemos, como se houvesse um destino ou poder superior que atua acima da nossa vontade. A conseqüência disso em geral é: desperdício de tempo; incoerência; falta de foco, direção e objetividade; procrastinação; projeção; falta de ação; crescente incapacidade de tomar decisões; submissão; co-dependência; doença física e psíquica; e gradativa morte da alma.

O fato de meu aniversário coincidir com a passagem do ano acentua ainda mais, para mim, a necessidade de uma revisão. Porém, agora, estou disposta a ir além: intento a recapitulação, prática do xamanismo tolteca, pelo qual nutro grande admiração e interesse.
O xamanismo tolteca afirma que quando vivemos um evento, sempre deixamos para trás uma parte de nossa energia e levamos a energia das pessoas, o que nos enfraquece e nos aprisiona.
Mesmo sabendo que o tempo linear é somente um aspecto, penso que a passagem de ano, seja na contagem do calendário ou da existência, pode ser um período profícuo para esta modalidade de aprendizado.

“Todos os fatos da vida devem ser recapitulados, por isso se diz que a recapitulação dura a vida inteira, temos sempre camadas mais profundas para recapitular.” (Nuvem que passa)

A recapitulação não é uma técnica terapêutica ou prática com fins psicanalíticos e não deve ser confundida com revisão. Eu até pratiquei algum tempo a revisão diária, no momento entre a vigília e o sono, repassando cada evento vivido no dia.

Na revisão também pode ser útil manter um caderno onde anotamos não os fatos em si, mas como nos sentimos diante deles (antes de dormir). Este exercício, como é ensinado no Pathwork® (sistema de autotransformação e autorrealização pessoal), é muito profícuo para identificar os padrões que determinam nossos hábitos, comportamentos e ações.

Porém, a revisão é realizada somente num nível mental e não dá conta de transformar energeticamente o momento em que o evento aconteceu e conseqüentemente só irá reforçar psíquica e emocionalmente seus efeitos e não resgatar a nossa energia perdida. Num certo sentido é o que ocorre nos processos psicanalíticos, por isso que, muitas vezes, ao invés de se sentir bem, a pessoa acaba por reviver o mal estar; ao invés de uma sensação de liberação e leveza, advém uma sensação de peso e prisão.

Há um prazer atávico em escapulir da prisão. (Arnaldo Preto)


É possível que em certos momentos da revisão o corpo emocional sinta necessidade de liberar energias represadas através do choro convulsivo (ou outro tipo de liberação ou excreção). Não creio que isso deveria ocorrer na recapitulação.

A recapitulação não é só lembrar-se de um evento que aconteceu com total atenção. Mais do que isso, é o uso da magia da respiração para varrer os eventos trazendo de volta a nossa energia e devolvendo a energia que trouxemos. Sua base é o deslocamento do ponto de aglutinação até a posição que ocupava no evento.

Para isso ocorrer é necessário silêncio e recolhimento. Como recebemos o tempo todo estímulos exteriores, é recomendado recapitular em engradados, armários, lugares mais fechados, com pouca luminosidade, que facilitam o deslocamento do ponto de aglutinação. Não é recomendado recapitular em lugares abertos.

Recapitular é um dos instrumentais de guerra, a guerra contra os limites em nossa busca de liberdade. (Nuvem que Passa)