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| autorretrato (série Descansos) |
Tomo a liberdade de fazer
uma corruptela da famosa frase de Simone de Beuvoir que já causou tanta
polêmica e motivou muitos debates sobre gênero: a gente não nasce mulher, a
gente aprende a ser mulher.
A gente aprende a ser
mulher desde a infância, quando começamos a receber a intensa e pesada carga
que “ser mulher” carrega e que carregamos sobre os ombros durante nossa
existência. Desde as frases: “senta com as pernas fechadas, menina! Não quer
que ninguém veja sua calcinha.” até a famosa admoestação “isso não é coisa de
menina”, passando pela distribuição de tarefas domésticas em uma família onde
há homens e mulheres.
A gente aprende que ser
mulher não é legal, principalmente quando começam a aparecer os primeiros
sinais da puberdade e temos de nos preocupar com o “desejo dos homens” e, mais
tarde um pouco, começamos a sentir o desconforto mensal que ser mulher
significa. E mais ainda no momento em que temos de “tomar cuidado” com a roupa
que vestimos, os lugares que frequentamos, o horário que andamos sozinhas na
rua e com nossas atitudes, para nos mantermos nossa segurança e integridade
física. A gente aprende que ser mulher é perigoso porque podemos sofrer
violência ou estupro e ainda sim sermos culpabilizadas.
A gente aprende que ser
mulher é uma desvantagem quando deparamos com um mercado de trabalho que nos
paga menos, nos discrimina devido à possibilidade de licença maternidade, e nos
exige mais simplesmente por sermos mulheres.
A gente aprende que ser
mulher é exaustivo quando temos de dar conta de todos os infinitos papéis
sociais e projeções sobre nós. E que é desgastante quando percebemos que não
podemos ser menos que perfeitas (física, emocional e intelectualmente) para
sermos aceitas, validadas e... amadas.
E a gente aprende isso
tudo com nossas próprias mães que, por uma falta de reflexão ou vítimas de seu
sofrimento pessoal, não encontraram nada melhor para nos deixar de legado. A
gente aprende que nossa integridade psíquica e emocional depende de como
lidamos com essa herança cultural.
A gente aprende que ser
mulher é difícil quando temos de lidar com a competição entre as minas (tão
estimulada pela sociedade) e falta de sororidade entre as manas.
A gente aprende que ser
mulher é desafiador, mas também uma fonte de recursos internos quase inesgotáveis.
E aprende o quão incrível é ser mulher quando experimentamos a profunda
cumplicidade que temos umas com as outras, as vezes num simples olhar. A gente
aprende a mágica do sexto sentido e a beleza de uma vida profunda. A gente
aprende o auto amor e o amor por todas as mulheres. Muitas de nós aprendem a
alegria de amar uma outra mulher. E a gente aprende que é uma delícia ter milhares
de pontos G espalhados por todo o nosso corpo. E aprende a ser autônoma em se
proporcionar prazer.
A gente aprende a se equilibrar
em si mesma. Mas também a buscar nossa rede de apoio que pode se estender pelo
mundo afora. Aprende a perdoar, mesmo que doa. E a doer com o sofrimento do
mundo sem sangrar até o aniquilamento. Aprende a doar amor, atenção e carinho
sem se esgotar. E também a se curar e curar os outros.
A gente aprende a se
apaixonar, todos os dias, por si mesma. E a buscar quem queira e mereça compartilhar
dessa maravilhosa jornada e descoberta cotidiana que é ser mulher.

