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| © Malu Aguiar: Solilóquio |
“Nada necessita ser dito. ” Precisamente
por isso o dizemos: para nos ouvir.
Quando
tatuei o “being an angel”, ele fazia parte de uma performance vida/arte. Esta
frase foi retirada de um texto de Gianni Romano (1998)* sobre a obra de
Francesca Woodman (até hoje, a única pessoa que apreendeu essa relação de
imediato, foi a artista carioca Claudia Tavares).
Conheci
Francesca em 2003, quando então iniciei meu projeto de autorretratos na ULA –
Universidade Livre de Arte, projeto que participei com alguns dos integrantes que
conheci no Grupo de Terça do Ateliê Piratininga, sob a batuta de Rubens
Espírito Santo (Res), no então Ateliê do Centro. Minha pesquisa em
autorretratos nasceu da tentativa de diminuir a distância entre vida e arte, em
tornar a mim mesma e meu cotidiano minha obra. Nesse momento, estava me
debruçando sobre a obra de artistas mulheres que trabalhavam com retratos ou autorretratos,
como Ana Mendieta, Ellen Van Meene, Emanuelle Antille, Rosangela Rennó, Elina
Brotherus, mas foi o film stills de Cindy Sherman que me motivou a começar a
criar personas e fotografá-las nas casas das pessoas. A obra de Francesca foi tema de um dos meus trabalhos "acadêmicos" da ULA.
Passei tempo demais nesse exercício dos autorretratos (cerca de 4 anos), sendo que
eu era a modelo, a diretora e a fotógrafa. Fartei-me da empostação dos temas planejados e não
tardou para que eu me tornasse “o assunto e objeto” da obra. Como uma
espécie de auto escrutínio constante, passei a me fotografar em diversas
situações, no Ateliê do Centro e outros locais. Nesses autorretratos, alguns fenômenos não planejados
aconteciam, como efeitos de transfiguração, de modo que eu senti que havia
muito mais no espaço entre mim e a câmera. O inabordável se fazendo presente. Penso
ser isso que é possível sentir (e ver) na obra de Francesca, obviamente com
muito mais qualidade estética e poética. A obra de Francesca traduz muito da
aflitiva experiência humana e seu esforço de transcendência.
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| © Francesca Woodman: On Being an Angel |
Dos
melhores filmes que vi sobre anjos, (Asas do Desejo, Tão Longe Tão Perto e Cidade
dos Anjos) anjos são apresentados semelhantes aos humanos. Eles são comuns e ao
mesmo tempo singulares. Eles desejam a cinestésica experiência humana assim
como desejamos sua imanência. Mas não há diferença entre nós. E, talvez sejamos
mesmo anjos caídos. Desde pequena me dizem: você é um anjo. Quer seja ao
agradecer as infinitas gentilezas, preocupações e cuidados com o bem-estar do
outro, quer seja porque de algum modo me assemelhava a um. O fato é que nunca
me vi ou me senti leve, excetuando quando embarco de avião ou de amor, quando
danço livremente ou faço yoga e meditação, em uma única viagem alucinógena ou
quando me penduro e balanço. A pretensa leveza de corpo e alma requer movimento
ou cessação de pensamento. Requer mergulhar na totalidade pelo amor. Foi uma “difícil
tarefa a prática e preparação para me tornar um anjo”...tornar-me Mardi Luss
(Mar de Luz, Marlucia). De fora de estereótipos de gênero, padrões de pensamento e comportamento,
ausência de crítica ou julgamento, despir-se de preconceitos e abrir mão de qualquer controle ou medo, lançar-se ao desconhecido. Permitindo-me
o sentimento de totalidade e mergulhando na “imensidão que tememos”**.
Vocês
sabem: “a ambiguidade aumenta com a força dos sentimentos envolvidos”, desejo e
medo caminham de mãos dadas: são filhos gêmeos da falta. E é muito maior o
conforto de estar em uma “fragmentária, mas acolhedora realidade” que mergulhar
no “espaço para o transitório, para a mudança”. Gostamos de certa densidade e
nos enamoramos da gravidade da vida. E, mais que buscar perceber a totalidade,
ser a totalidade pode ser um tanto assustador.
Agora,
ando experimentando essa qualidade de leveza que pensei serem reservadas às
crianças, aos moribundos ou aos anjos. É uma leveza de passagem, de
atravessamento. Em breves momentos o pensamento cessa e o corpo desaparece. Então,
é só silêncio, dentro e fora.
*citações
do texto original nas aspas
**
citação de música de Sarah
Mclachlan
Transcendência (do latim transcēndo, is, di, sum, ĕre): passar
subindo, atravessar, ultrapassar, transpor; (filosofia): imanência, ascender ou ir além


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